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04/03/2011

'Versiprosa'


O Novo Homem

O homem será feito
em laboratório.
Será tão perfeito como no antigório.
Rirá como gente,
beberá cerveja
deliciadamente.
Caçará narceja
e bicho do mato.
Jogará no bicho,
tirará retrato
com o maior capricho.
Usará bermuda
e gola roulée.
Queimará arruda
indo ao canjerê,
e do não-objecto
fará escultura.
Será neoconcreto
se houver censura.
Ganhará dinheiro
e muitos diplomas,
fino cavalheiro
em noventa idiomas.
Chegará a Marte
em seu cavalinho
de ir a toda parte
mesmo sem caminho.
O homem será feito
em laboratório
muito mais perfeito
do que no antigório.
Dispensa-se amor,
ternura ou desejo.
Seja como for
(até num bocejo)
salta da retorta
um senhor garoto.
Vai abrindo a porta
com riso maroto:
«Nove meses, eu?
Nem nove minutos.»
Quem já concebeu
melhores produtos?
A dor não preside
sua gestação.
Seu nascer elide
o sonho e a aflição.
Nascerá bonito?
Corpo bem talhado?
Claro: não é mito,
é planificado.
Nele, tudo exacto,
medido, bem posto:
o justo formato,
o standard do rosto.
Duzentos modelos,
todos atraentes.
(Escolher, ao vê-los,
nossos descendentes.)
Quer um sábio? Peça.
Ministro? Encomende.
Uma ficha impressa
a todos atende.
Perdão: acabou-se
a época dos pais.
Quem comia doce
já não come mais.
Não chame de filho
este ser diverso
que pisa o ladrilho
de outro universo.
Sua independência
é total: sem marca
de família, vence
a lei do patriarca.
Liberto da herança
de sangue ou de afecto,
desconhece a aliança
de avô com seu neto.
Pai: macromolécula;
mãe: tubo de ensaio,
e, per omnia secula,
livre, papagaio, sem memória e sexo,
feliz, por que não?
pois rompeu o nexo
da velha Criação,
eis que o homem feito
em laboratório
sem qualquer defeito
como no antigório,
acabou com o Homem.
Bem feito.
:
Carlos Drummond de Andrade, in 'Versiprosa'.

:

11/02/2011

Espaço GAIA

Uma ocupação é ao mesmo tempo espaço de convivência e espaço para avançar na perspectiva de construção do popular e de formas libertárias de vivência. Espaços e atividades coletivas servem para inverter a lógica da competição e do individualismo da sociedade capitalista. Uma ocupação urbana organizada a partir da lógica de independência de classe e protagonismo da gente em expansão de consciência deve avançar até que se torne uma área liberta do poder e da (IN)justiça – assim como dos valores da sociedade do capital – deve ser um embrião de expressão plural.

São muitos os CON(TEXTOS) para avançar na perspectiva das ocupações urbanas. Uma UNIÃO das ocupações e uma relação de COMPARTILHAR experiências entre elas deve ser um primeiro passo, assim como, aprofundar as atividades coletivas e ampliá-las para todo o bairro da OKUPA, criando uma relação firme de confiança entre OCUPAÇÃO x BAIRRO.

São pequenos passos de um longo caminho, que com humildade, diálogo e consciência as OKUPAS devem ir trilhando.

“SE MORAR É UM DIREITO, OCUPAR É UM DEVER”.

http://okupagaia.wordpress.com/

Luz
Luti.
:

festival



FESTIVAL GAIA!
FESTIVAL GAIA!



Domingo I 13/02 I Espaço-Okupa-Squat Gaia!


10h - mutirão na horta / técnicas de permacultura
- muralismo (pintura social em muro - tragam tintas e pincel!)

14h - almoço freegan

15h - oficinas (edição de vídeo, teatro, alongamento, malabares, dança, máscaras)

16h - ensaio aberto e livre do bloco "na sala do sino" (tragam seus instrumentos!)

18h - filme "atrás da porta"

19:30h - música y poesia (tragam suas manifestações e inquietações!)


>> feira grátis (deixe e leve - sessão desapego!)
>> banca de zine libertário



Rua Almirante Alexandrino - Santa Teresa.

:

18/01/2011

Mãe Gaia pede socorro

:

Terra vai se contorcendo, num movimento
elíptico, dentro do espaço azul, que a envolve e
o sol joga-lhe uma torrente de luz, trazendo-lhe
força, para que cada broto seu, renasça viril.
:
Os rios correm ligeiros sobre seu corpo de safira,
como potentes veias e artérias, levando vida pra
tudo que nela habita, enquanto o vento, em torno
dela, tece primorosas espirais, numa dança etérea.
:
Aos poucos, o sol vai saindo de fininho, pra dar
lugar à lua, que penetra humilde pelos minaretes,
templos e catedrais, palácios e choças, banhando
os reinos animal, mineral e vegetal, em deleite.
:
O universo inunda a Mãe Gaia com sua ternura,
enchendo o planeta de afeto, mas, mesmo assim,
ela está dobrada pela dor, judiada pelo sofrimento,
em muitas partes está famélica, quase um espectro.
:
Não mais consegue esconder a agonia; mostra
a sua dor e pede a compaixão do homem, que
não vê a sua angústia, atolado no delírio do
poder mesquinho, covarde, prepotente, insano.
:
Apesar de tão bela, vista de longe pelos olhos
brilhantes das estrelas que a observam, ela
soluça e afunda em desespero, enquanto o caos e
a confusão alastram-se sobre Gaia, aos borbotões.
:
Terra amada, fonte generosa de vida, quisera eu abrir
meu peito pra lhe dar guarida, não permitindo que lhe
arranquem os pelos verdes, intoxiquem-lhe as veias,
tingindo de cinza o azul de tantos tons e tantas belezas.
:
Por LuDiasBH.
:

05/01/2011

à Flor,

:
A Flor e A Náusea
:
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
:
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
:
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
:
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
:
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
:
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
:
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
:
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
:
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
:
por Carlos Drummond de Andrade.
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