cevadaS...

18/01/2011

Mãe Gaia pede socorro

:

Terra vai se contorcendo, num movimento
elíptico, dentro do espaço azul, que a envolve e
o sol joga-lhe uma torrente de luz, trazendo-lhe
força, para que cada broto seu, renasça viril.
:
Os rios correm ligeiros sobre seu corpo de safira,
como potentes veias e artérias, levando vida pra
tudo que nela habita, enquanto o vento, em torno
dela, tece primorosas espirais, numa dança etérea.
:
Aos poucos, o sol vai saindo de fininho, pra dar
lugar à lua, que penetra humilde pelos minaretes,
templos e catedrais, palácios e choças, banhando
os reinos animal, mineral e vegetal, em deleite.
:
O universo inunda a Mãe Gaia com sua ternura,
enchendo o planeta de afeto, mas, mesmo assim,
ela está dobrada pela dor, judiada pelo sofrimento,
em muitas partes está famélica, quase um espectro.
:
Não mais consegue esconder a agonia; mostra
a sua dor e pede a compaixão do homem, que
não vê a sua angústia, atolado no delírio do
poder mesquinho, covarde, prepotente, insano.
:
Apesar de tão bela, vista de longe pelos olhos
brilhantes das estrelas que a observam, ela
soluça e afunda em desespero, enquanto o caos e
a confusão alastram-se sobre Gaia, aos borbotões.
:
Terra amada, fonte generosa de vida, quisera eu abrir
meu peito pra lhe dar guarida, não permitindo que lhe
arranquem os pelos verdes, intoxiquem-lhe as veias,
tingindo de cinza o azul de tantos tons e tantas belezas.
:
Por LuDiasBH.
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05/01/2011

à Flor,

:
A Flor e A Náusea
:
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
:
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
:
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.
:
Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
:
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
:
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
:
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
:
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
:
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
:
por Carlos Drummond de Andrade.
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